
Durante muito tempo, eu achei que aquilo que eu pensava, aquilo que eu sentia e o meu próprio corpo eram simplesmente “eu”. Se o meu corpo sentia dor, eu dizia que eu estava com dor. Se um pensamento aparecia na minha mente, eu dizia que eu estava pensando aquilo. Se uma emoção surgia, eu dizia que aquela emoção era eu.
Foi quando comecei a compreender a ideia do observador que essa maneira de enxergar a mim mesmo começou a mudar.
Eu comecei por uma distinção muito simples: existe aquilo que é observado e existe aquele que observa.
Aquilo que está diante de mim pode ser observado. Uma caneta pode ser observada. Uma planta pode ser observada. Um quadro pode ser observado. O meu corpo também pode ser observado. Um pensamento também pode ser observado.
E, quando eu observo alguma coisa, existe algo que está percebendo aquilo que está sendo observado.
Essa diferença entre quem observa e aquilo que é observado é a base da teoria do observador.
Quanto mais eu prestava atenção nisso, mais uma pergunta aparecia: se eu consigo observar alguma coisa, como essa coisa poderia ser exatamente aquele que está observando?
Eu consigo observar o meu corpo. Eu sinto o meu corpo. Eu percebo o meu corpo. Por isso, eu começo a compreender que eu não sou simplesmente o meu corpo. Sou aquele que observa o corpo.
Eu também consigo observar os pensamentos que aparecem na minha mente. Um pensamento surge, permanece durante algum tempo e depois desaparece. Se eu consigo perceber um pensamento surgindo e desaparecendo, então eu não posso ser simplesmente aquele pensamento. Eu sou aquele que observa o pensamento.
Eu consigo perceber a minha mente. Eu consigo perceber pensamentos passando pela minha mente. Eu consigo perceber emoções aparecendo dentro da minha experiência. Por isso, começo a compreender que eu também não sou simplesmente a minha mente. Sou aquele que observa a mente, as emoções e sentimentos.
Essa compreensão a base da Espiritualidade: eu não sou o corpo; eu sou a consciência que observa.
A ideia não é dizer que o corpo não existe. O corpo existe. A ideia não é dizer que a mente não existe. A mente existe. A questão é compreender que o corpo observado e a mente observada não são a mesma coisa que a consciência que observa o corpo e a mente.
Quando comecei a olhar dessa maneira, percebi também por que os pensamentos e as emoções conseguiam me fazer sofrer tanto.
Eu tinha o hábito de tratar tudo aquilo que acontecia dentro da minha mente como se fosse necessariamente aquilo que eu era. Um pensamento aparecia e eu me identificava com aquele pensamento. Uma emoção aparecia e eu me identificava com aquela emoção. Um medo surgia e parecia que aquele medo era simplesmente “eu”.
Mas, se eu consigo perceber o medo aparecendo, existe algo que percebe o medo.
Se eu consigo perceber uma emoção aparecendo, existe algo que percebe a emoção.
Se eu consigo perceber um pensamento aparecendo, existe algo que percebe o pensamento.
Foi aí que comecei a entender a importância dessa diferença entre o observador e aquilo que é observado.
O observador percebe.
Aquilo que é observado é percebido.
O observador vê.
Aquilo que é observado é visto.
O observador e aquilo que é observado não são a mesma coisa.
Essa compreensão também ajuda a entender o papel da meditação.O papel do silêncio interior.
Na meditação, não se trata simplesmente de fazer o corpo desaparecer ou de desligar a mente. O ensinamento aponta para algo mais profundo: quando a experiência do corpo e da mente deixa de ocupar toda a minha atenção, começo a perceber que existe uma consciência que permanece observando.
Durante uma meditação profunda, pode acontecer de eu perceber muito pouco do meu corpo. A sensação do corpo pode ficar extremamente pequena. Posso perceber o corpo de uma maneira muito diferente daquela que percebo normalmente. A sensação da respiração também pode ficar tão sutil que parece que eu nem estou respirando.
Ao mesmo tempo, os pensamentos podem diminuir.
Quando isso acontece, aquilo que normalmente eu chamava de “eu” começa a ficar muito diferente.
O corpo deixa de ocupar toda a minha atenção.
Os pensamentos deixam de ocupar toda a minha atenção.
As emoções deixam de ocupar toda a minha atenção.
Então surge uma questão muito importante: se o corpo está sendo pouco percebido e se os pensamentos também estão diminuindo, a consciência desapareceu?
A resposta é não.
A consciência permanece.
Ela permanece como aquilo que observa.
É por isso que a meditação é apresentada como um caminho para a cura do sofrimento. A questão não é simplesmente fazer o corpo parar. A questão não é simplesmente fazer a mente parar. A questão é começar a reconhecer que eu não sou apenas aquilo que aparece e desaparece dentro da minha experiência.
Eu percebo o corpo, mas o corpo é percebido.
Eu percebo a mente, mas a mente é percebida.
Eu percebo os pensamentos, mas os pensamentos são percebidos.
Eu percebo as emoções, mas as emoções são percebidas.
E aquilo que percebe tudo isso é a consciência ou se preferir chamar assim, é o espírito.
Foi assim que comecei a compreender a ideia de consciência pura: a consciência que permanece como aquele que observa, enquanto o corpo, a mente, os pensamentos e as emoções aparecem como aquilo que pode ser observado.
Essa maneira de compreender a consciência também leva a outra questão: qual é o papel da consciência em relação ao mundo que percebemos?
Quando olho para um ambiente, vejo uma estante, vejo livros, vejo um teclado, vejo um quadro e vejo outros objetos. Esses objetos estão ali, mas nenhum desses objetos está percebendo os outros objetos.
A estante não está olhando para o teclado.
O teclado não está olhando para o quadro.
O quadro não está percebendo a estante.
Os objetos simplesmente estão ali.
Quando uma consciência percebe esses objetos, existe percepção. Existe alguém que vê a estante. Existe alguém que vê os livros. Existe alguém que vê o teclado. Existe alguém que vê o quadro.
Se eu imaginar a retirada de todas as consciências capazes de perceber o mundo, não restariam pessoas, animais ou outras formas de vida capazes de perceber aquilo que existe ao redor. Restariam apenas objetos sem vida: tijolos, madeira, terra e outras coisas sem consciência perceptiva. Falando de forma mais direta, não existiria percepção, e seria como se as coisas não existissem.
Dentro dessa visão, a consciência que percebe é fundamental para que exista um mundo percebido.
Isso também ajuda a compreender por que a teoria do observador é tão importante para a meditação.
Quando eu medito, começo a observar aquilo que normalmente considero como sendo “eu”. Eu observo o corpo. Eu observo a mente. Eu observo os pensamentos. Eu observo as emoções.
E, quanto mais eu observo, mais começo a perceber que o observador não é a mesma coisa que aquilo que está sendo observado.
Eu posso perceber o meu corpo como percebo uma planta diante de mim.
Eu posso perceber a minha mente como percebo qualquer outra coisa que apareça diante da consciência.
Eu posso perceber um pensamento de medo surgindo dentro da minha mente e compreender que aquele pensamento é uma sugestão da mente. O pensamento aparece, mas existe uma consciência percebendo que o pensamento apareceu.
É por isso que a frase “eu não sou o corpo; eu sou a consciência que observa” ocupa um lugar tão importante nesse ensinamento.
Ela não está dizendo que o corpo não existe.
Ela não está dizendo que a mente não existe.
Ela está dizendo que o corpo observado não é a consciência que observa.
Ela está dizendo que a mente observada não é a consciência que observa.
Ela está dizendo que aquilo que pode ser percebido não é o mesmo que aquilo que percebe.
Quando comecei a compreender essa diferença, a meditação passou a fazer sentido de outra maneira.
Eu não estava simplesmente tentando parar os pensamentos.
Eu não estava simplesmente tentando deixar de sentir o corpo.
Eu estava aprendendo a reconhecer quem observa o corpo.
Eu estava aprendendo a reconhecer quem observa a mente.
Eu estava aprendendo a reconhecer quem observa os pensamentos.
Eu estava aprendendo a reconhecer quem observa as emoções.
E, dentro do ensinamento, essa compreensão é fundamental para entender como a meditação pode conduzir o praticante para a cura do sofrimento.
A partir daí, a compreensão pode avançar ainda mais: se eu consigo observar aquilo que acontece no corpo e na mente, então começo a perguntar quem é, afinal, aquele que observa.
É nessa direção que a teoria do observador conduz a prática.
Primeiro, eu percebo aquilo que é observado.
Depois, eu percebo que existe alguém observando aquilo que é observado.
Depois, começo a perceber que o observador não é aquilo que ele observa.
E, pouco a pouco, começo a reconhecer a consciência como aquilo que permanece enquanto o corpo, os pensamentos e as emoções podem mudar.
Foi essa compreensão que me mostrou por que a meditação não é apenas uma técnica para descansar a mente. Dentro desse ensinamento, a meditação é uma maneira de investigar diretamente quem está observando toda essa experiência.
Talvez, no fim, a pergunta mais importante não seja “o que estou pensando?”, “o que estou sentindo?” ou “o que está acontecendo com o meu corpo?”.
Talvez seja simplesmente: quem está percebendo tudo isso?
Ou melhor
quem é você, antes de tudo aquilo que você consegue observar?
💡 Continue sua reflexão:
Este ensinamento pode ser visto por diferentes ângulos. O vídeo recomendado apresenta uma visão complementar que vale a pena conhecer. Leia este ensinamento primeiro e, em seguida, assista ao vídeo recomendado. Assim, você poderá aprofundar a reflexão com uma perspectiva complementar sobre o mesmo tema.
🎵 Continue sua reflexão:
Este ensinamento também pode ser vivido através da música. A canção abaixo transforma a ideia apresentada neste texto em uma experiência para ouvir, refletir e guardar no coração. Depois de compreender o ensinamento, permita-se ouvir a música com calma e perceber como ela apresenta o mesmo princípio de uma maneira diferente.
🔍 Assuntos abordados neste artigo:
- Consciência e Observador: A compreensão da consciência, do observador e da diferença entre aquilo que observa e aquilo que é observado pode ajudar na busca pelo fim do sofrimento.
- Corpo e Mente: Entender a diferença entre corpo, mente, pensamentos e emoções permite observar essas experiências sem confundi-las com aquilo que você é.
- Meditação e Sofrimento: A meditação pode ser compreendida como uma prática de observação que favorece o alívio do sofrimento e uma relação diferente com pensamentos, sentimentos e experiências.
- Espiritualidade e Paz: A espiritualidade conduz à investigação da consciência e pode apontar para a paz interior ao reconhecer que pensamentos e emoções são experiências que podem ser observadas.

0 Comentários